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Blog da ABEC

O “teatro” como valioso recurso nas aulas de Língua e Cultura de Herança

 

Qual criança não ama brincar de faz-de-conta? Representar faz parte de nossas vidas desde muito cedo. Representamos diariamente diversos papéis, mesmo sem perceber. A representação é a alma da arte cênica, que floresceu entre os gregos há mais de três mil anos. Era usada, então, em rituais para educar e sensibilizar os cidadãos para os problemas comunitários ou como forma de catarse coletiva. Até os dias de hoje o teatro é uma forma de fazer pensar criticamente.

A linguagem lúdica do teatro é ideal para ativar diversos aspectos da linguagem, como a entonação e a pronúncia, os gestos e a expressão corporal. É uma atividade significativa que cria situações reais de comunicação em sala de aula. Além disso, pode ajudar o aluno a perder uma eventual timidez ao expressar-se em português, a aumentar sua autoestima, a colocar-se no lugar do outro e a aprender a trabalhar em grupo. Inclua-se aqui o teatro de sombras, o jogo de diálogos com máscaras, fantoches ou mamulengo.

 

Os cursos de Língua e Cultura de Herança, oferecidos aos brasileirinhos que vivem no exterior, ficam mais divertidos ao utilizar esse recurso pedagógico eficaz, com os objetivos de trabalhar com elementos da cultura brasileira, sensibilizar a garotada para a aprendizagem do idioma de sua família em suas diversas nuances, interagir em português com a turma e desenvolver a criatividade e o pensamento crítico.

 

Quando existe diversão  ̶ uma experiência que o jogo dramático pode vir a proporcionar  ̶  o aprendizado fica mais fácil e mantém vivo o interesse da garotada pelas aulas, ao mesmo tempo que atende aos diferentes objetivos didáticos. Se “todo professor deve ter um pouco de ator”, como dizia Ariano Suassuna, a sala de aula pode se transformar em um delicioso palco.

Temos autores brasileiros, como Maria Clara Machado, Ziraldo, Chico Buarque de Hollanda, que nos presentearam com obras teatrais infanto-juvenis deliciosas. Textos incríveis de grandes escritores como Monteiro Lobato e Ruth Rocha, podem ser adaptados para que possamos desenvolver com esses brasileirinhos um trabalho prazeroso.

 

O objetivo mais importante: despertar nos alunos a certeza de que têm capacidade de interagir com o idioma, ainda que não o dominem completamente.

Nesses vinte anos de trabalho com turmas de crianças brasileiras, nas associações culturais CEBRAC (Centro Brasileiro de Ação Cultural) e ABEC, na Suíça de língua alemã, percebi que as lembranças mais queridas de meus alunos são as nossas apresentações teatrais.

Duas peças foram trabalhadas: Reinações no sítio do picapau amarelo (uma adaptação que fiz da obra Sítio do picapau amarelo, de Monteiro Lobato) - apresentada por 3 diferentes turmas – e  A bruxinha que era boa, adaptada da obra de Maria Clara Machado, que acabou gerando um video. 

 

Todos os alunos estiveram realmente envolvidos com a trama e os personagens e demonstravam sentir prazer em representar.

Todo esse trabalho não teria sido tão rico e completo sem a participação dos pais, que foram envolvidos no trabalho com seus filhos, na memorização e treino das falas em casa, na confecção dos figurinos e fantasias, cenário, maquiagem, filmagem e fotografia. Os pais ainda relataram uma sensível evolução na linguagem de seus filhos e a alegria de vê-los se expressando cada vez melhor em português.

 

Tem sido uma alegria para todos trabalhar com elementos tão ricos do nosso Brasil, com aquela parte mais terna e que trazemos com tanto carinho no coração, quando moramos longe.

Deu trabalho? Sim, muito, mas foi recompensado com tantas coisas que vivenciamos e que todos nós envolvidos teremos para contar vida afora!

Neste ano letivo, 2016-17, será a vez de Pluft, o fantasminha,  adaptada da obra de Maria Clara Machado, com a garotada de Wettingen, cantão Aargau.

 

 

 

Um projeto envolvendo teatro pode durar de um semestre a um ano (36 a 72 horas-aula) e contempla todos os alunos de turmas heterogêneas, como geralmente são as nossas (quanto a faixa etária, nível escolar, conhecimentos prévios do idioma, emprego do português no dia-a-dia, etc) - no teatro há papéis para todos!

 

Sob uma perspectiva sociointeracionista, criam-se situações reais de uso do idioma,  com atividades que envolvem comunicação entre os alunos e a utilização de diversos gêneros textuais e orais e a reflexão sobre eles. Outros objetivos: trabalhar em grupo, tomar decisões, colaborar, raciocinar, lidar com os próprios sentimentos e os dos outros, colocar-se no lugar do outro, lidar com a timidez, improvisar, desenvolver a criatividade, aprender a avaliar e avaliar-se e criticar construtivamente,

Exemplo: desenvolvimento do projeto Reinações no Sítio do picapau amarelo  

No primeiro semestre, o objetivo é preparar as crianças para a compreensão da obra e familiarização com a linguagem de Monteiro Lobato e com as atividades e a linguagem teatral, trabalhando elementos das artes cênicas (desenvolver a oralidade, os gestos, a linguagem corporal, impostação de voz,  mudança da entonação marcando os diferentes personagens, postura corporal, gestos e expressões faciais). O trabalho inicial é realizado com a memorização de pequenos poemas e textos curtos (expressar-se usando pronúncia e entonação apropriadas).

 

A escrita também tem sua vez na reconstrução dos diálogos. A gramática e ortografia são trabalhadas conforme aparecem nos textos, como por exemplo o emprego dos tempos verbais.

Outro recurso utilizado, sendo a peça um musical, é o das canções, envolvendo a leitura e compreensão dos textos, ouvir e cantar, observando pronúncia e entonação, espaço também para o trabalho com ortografia e gramática.

Os temas transversais são usados para a reflexão e o conhecimento. Por exemplo, a disciplina Geografia, abordando a vida e moradia na cidade e no campo, as mudanças através do tempo por ação humana; o Brasil - seus Estados e regiões.

O segundo semestre é dedicado inteiramente ao trabalho com a peça em si. Envolver os alunos com a trama e os personagens, preparar os convites, elementos do cenário, montar o espetáculo e incentivar o grupo a criar as encenações. As últimas etapas: a apresentação e as avaliações do trabalho desenvolvido, individualmente e pelo grupo.